
Foi nos dois municípios que Francisco Cândido Xavier praticou seus 75 anos de mediunidade, deixou a marca de sua obra espiritual e assistencial e as lembranças de uma trajetória cheia de fé, admiração e respeito. “Pedro Leopoldo foi o berço natal e Uberaba o berço que o acolheu”, explica o filho de criação do médium Eurípedes Humberto Higino dos Reis, que cuida do legado de Chico em Uberaba. “Ele dizia que Pedro Leopoldo era a mãe e Uberaba, a tia”, revela o curador da Casa de Chico Xavier em Pedro Leopoldo, Hélcio Marques.
A Casa de Chico Xavier abriga exemplares em diversos idiomas dos mais de 400 livros psicografados pelo médium e das 170 obras que versam sobre ele, além de reportagens de jornais, revistas e em fitas de vídeo. Esta instalada onde ele morou. Além desse espaço, Pedro Leopoldo tem o Centro Espírita São Luiz Gonzaga, erguido no local onde era a casa em que Chico nasceu em 1910. Uma das principais praças da cidade, desde 1980, recebeu o nome do médium.
A primeira experiência espiritual de Chico Xavier ocorreu quando fazia uma oração para sua irmã que estava doente e sem esperança dos médicos que a examinaram. Já em 1927 ele escreve sua primeira psicografia, no centro espírita Luís Gonzaga.
Em 1931, o médium viu pela primeira vez seu benfeitor espiritual, Emmanuel. Seu primeiro contato aconteceu no momento em que Chico esteve à sombra de uma árvore, à beira do Açude do Capão, no momento em que orava. Neste momento, viu uma cruz luminosa, percebendo a figura de um senhor que vestia uma túnica sacerdotal. Ocorreu então o famoso diálogo entre Chico e Emmanuel**:
““Está mesmo disposto a trabalhar na mediunidade?
- Sim, se os bons espíritos não me abandonarem.
- Você não será desamparado, mas para isso é preciso que trabalhe, estude e se esforce no bem.
O senhor acha que estou em condições de aceitar o compromisso?
- Perfeitamente, desde que respeite os três pontos básicos para o serviço.
Diante do silêncio do desconhecido, Chico perguntou:
Qual o primeiro ponto?
A resposta veio seca:
Disciplina.
E o segundo?
Disciplina.
- E o terceiro?
Disciplina, é claro.
Chico Xavier concordou. E o estranho aproveitou a deixa:
- Temos algo a realizar. Trinta livros para começar.
O rapaz levou um susto. Como iria comprar tinta e papel? Quem pagaria a publicação de tantos títulos? O salário de caixeiro no armazém de Felizardo mal dava para as despesas de casa, os 13 mil-réis mensais eram gastos com catorze irmãos; seu pai era apenas um vendedor de bilhetes de loteria.
Chico arriscou uma previsão.
- Papai vai tirar a sorte grande?
O forasteiro encerrou as apostas:
- Nada, nada disso. Sorte grande mesmo é o trabalho com fé em Deus. Os livros chegarão por caminhos inesperados.
O roteiro estava escrito. Restava ao matuto de Pedro Leopoldo seguir as instruções. Seus passos, tropeços e quedas, muitas quedas, seriam acompanhados de perto por aquele estranho a cada dia mais íntimo, O nome dele: Emmanuel, o mesmo que tinha se apresentado a Carmem Perácio quatro anos antes. A missão: guiar o rapazote e evitar que ele fugisse do script traçado no além. “Chico deveria colocar no papel as palavras ditadas pelos mortos e divulgar, por meio do livro, a doutrina dos espíritos””.
(“As Vidas de Chico Xavier”, Marcel Souto Maior, Edit. Planeta)
Estilo
Além da recomendação de disciplina, para toda e qualquer situação, a segunda mais importante orientação de Emmanuel para o médium é assim relembrada: – “Lembro-me de que num dos primeiros contatos comigo, ele me preveniu que pretendia trabalhar ao meu lado, por tempo longo, mas que eu deveria, acima de tudo, procurar os ensinamentos de Jesus e as lições de Allan Kardec e, disse mais, que, se um dia, ele, Emmanuel, algo me aconselhasse que não estivesse de acordo com as palavras de Jesus e de Kardec, que eu devia permanecer com Jesus e Kardec, procurando esquecê-lo”. Esse é o estilo de Emmanuel. A verdade sem rodeios.
NO FUTURO
Quando o homem gravar na própria alma
Os parágrafos luminosos da Divina Lei,
O companheiro não repreenderá o companheiro,
O irmão não denunciará outro irmão.
O cárcere cerrará suas portas,
Os tribunais quedarão em silêncio.
Canhões serão convertidos em arados,
Homens de armas volverão à sementeira do solo.
O ódio será expulso do mundo,
As baionetas repousarão,
As máquinas não vomitarão chamas
para o incêndio e para a morte,
Mas cuidarão pacificamente do progresso planetário.
A justiça será ultrapassada pelo amor.
Os filhos da fé não somente serão justos,
Mas bons, profundamente bons.
A prece constituir-se-á de alegria e louvor
E as casas de oração estarão consagradas
ao trabalho sublime da fraternidade suprema.
A pregação da Lei
Viverá nos atos e pensamentos de todos,
Porque o Cordeiro de Deus
Terá transformado o coração de cada homem
Em tabernáculo de luz eterna,
Em que o seu Reino Divino
Resplandecerá para sempre.
EMMANUEL
Livro: “Pão Nosso”
Chico se transformou em uma das figuras mais conhecidas do Brasil. Graças ao fenônemo da psicografia, o médium escreveu mais de 400 livros, somando 50 milhões de exemplares vendidos. E, mesmo de origem humilde, ele doava toda a quantia arrecadada a projetos e instituições de caridade. O último livro publicado por ele, em 1999, se chamava “Escada de Luz”.
Chico Xavier, o homem que entregou sua vida ao espiritismo de corpo e alma, levou a todos o amor incondicional que sentia, lutou contra o fim do preconceito sobre o Espiritualismo no Brasil. Nestes 100 anos aprendemos muito com sua grandiosa doutrina e nosso aprendizado não poderá ter fim com sua morte. Todos nós, espíritas, cristãos, crentes, brancos, mulatos, ou quais que seja nossas crenças, cor de pele, idade ou diferenças econômicas devemos muito a este que foi e continua sendo um exemplo a ser seguido.
“O Trabalho Edifica. A Solidariedade aperfeiçoa. A Tolerância Eleva.” Chico Xavier
*Casa da Prece é o Grupo Espírita da Prece continua realizando cultos aos sábados no local que ficou conhecido popularmente como Casa da Prece. Era lá que Chico, às sextas-feiras e aos sábados, recebia mais de 500 pessoas.
**Emmanuel é o nome dado pelo médium espírita brasileiro Chico Xavier ao espírito a que atribui a autoria de boa parte de suas obras psicografadas. Esse espírito era apontado por Chico Xavier como seu orientador espiritual.
Fonte: Instituto Chico Xavier




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